Na última década, gestações na adolescência caíram 62% e subiram nas faixas a partir dos 25. Crédito: Edu Kapps / SMS
Estefani tinha um ano quando a mãe morreu. Com 22 anos, Jaciara não resistiu às complicações do parto do quarto filho. Fez o pré-natal nas três primeiras gestações, mas, na quarta, a sensação de que já sabia tudo fez com que ela abandonasse o acompanhamento, e foi aí que as complicações fatais surgiram. Aos 30, Estefani carrega essa história como razão de uma escolha. Desde os 18, realizava acompanhamento reprodutivo no Centro Municipal de Saúde (CMS) Harvey Ribeiro Souza Filho, no Recreio, com um objetivo claro: o de que a tão desejada maternidade não viesse antes da hora. Hoje ela realiza o pré-natal na mesma unidade, à espera de um bebê que virá no momento escolhido, num cenário de segurança emocional e financeira.
“Várias amigas minhas de escola não curtiram a gestação, outras mulheres que conheço também. Então, acho que ver tantas histórias assim à minha volta fizeram eu adiar a minha para quando fosse o momento certo”, explica a pedagoga.
A história de Estefani ilustra o novo panorama da maternidade no Rio. Dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) mostram que, ao longo da última década, a participação de mães adolescentes no total de nascimentos caiu drasticamente, enquanto a de mães acima dos 25 anos cresceu de forma consistente.
Os números foram apurados pelo Núcleo de Inteligência Assistencial da Superintendência de Atenção Primária (NIA/SAP) a partir de registros do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), considerando apenas nascimentos ocorridos em unidades municipais. No total, o volume anual de nascimentos recuou de cerca de 53 mil em 2015 para aproximadamente 36 mil em 2025 — queda de 32% em dez anos.
Dentro desse cenário, a redução da gravidez na adolescência se destaca como um dos avanços mais significativos do período. O grupo de mães entre 15 e 19 anos registrou a maior queda absoluta: de 11.884 nascimentos em 2015 para 4.502 em 2025, uma redução de 62%. Todas as faixas abaixo dos 20 anos seguiram a mesma direção.
O movimento oposto ocorreu entre as mães mais velhas. A faixa de 25 a 29 anos foi a que mais cresceu proporcionalmente, passando de 21,8% para 28,1% do total de nascimentos. A participação das mães de 35 anos ou mais também aumentou, de 10,0% para 12,6% no período. A mediana de idade das mães atendidas nas unidades municipais é de 27 anos.
A transformação no perfil das mães do Rio de Janeiro na última década destaca, entre outros fatores, o efeito das ações da SMS para o incentivo ao planejamento reprodutivo, um dos pilares da promoção da saúde da mulher e do cuidado materno-infantil na rede de Atenção Primária do município. Na prática, os dados indicam o adiamento da maternidade e a redução da gravidez não programada. Hoje, a rede de Atenção Primária do município (centros municipais de saúde e clínicas da família) realiza o acompanhamento pré-natal de cerca de 25 mil gestantes. Destas, 4.090 têm 35 anos ou mais e 859 são menores de 18 anos.
Poder gerar é uma dádiva
Estefani foi criada por uma tia, a quem chama de mãe com muito orgulho. A tia não pôde realizar o sonho de ter filhos biológicos e via na sobrinha “a filha que Deus mandou”. “Sempre vi poder gerar como uma dádiva”, conta a gestante. Em um relacionamento estável há seis anos, ela procurou seu CMS quando decidiu que queria engravidar. O que antes era prevenção tornou-se acolhimento no pré-natal. Para ela, esperar permitiu que ela tivesse mais maturidade e segurança para viver a gestação.
O planejamento da gestação é fruto da educação em saúde e resulta na autonomia da mulher em relação a sua trajetória de vida, como lembra a superintendente de Atenção Primária do município, Larissa Terrezo. Aos 40 anos e gestante do Francisco, seu terceiro filho, Larissa é ela própria um exemplo desse novo perfil de maternidade: decidiu ser mãe nos momentos em que queria ser mãe, sem deixar de lado os estudos e a carreira. Assim, Francisco virá ao mundo num lar estruturado, com condições para se desenvolver e ser feliz.
“Nas unidades de Atenção Primária, desenvolvemos uma série de ações de educação em saúde para conscientizar e estimular a adesão ao planejamento reprodutivo, o que inclui a oferta de métodos como DIU, implante contraceptivo, entre outros. Do ponto de vista da saúde pública, isso não é nem pode ser um tabu. Buscamos dar às adolescentes e jovens mulheres que acompanhamos todos os recursos para que a gravidez, se desejada, aconteça de maneira planejada, de modo que essa mãe tenha tempo para estudar, se desenvolver em outros aspectos e se dedicar à carreira. Isso contribui não só para uma gestação mais saudável, mas também para o desenvolvimento saudável da criança”, afirma a superintendente.
Gestantes mais velhas exigem cuidados específicos
Larissa também destaca que o envelhecimento das mães demanda um olhar especial, já que a gravidez entre mulheres de 35 anos ou mais tem algumas particularidades:
“A gestação nessa idade pede um cuidado específico. O pré-natal é o que nos permite prevenir ou identificar precocemente condições como hipertensão e diabetes gestacional, que aparecem com mais frequência nessa faixa etária. Durante o acompanhamento, o médico vai avaliar se há necessidade de mais consultas e de realização de diferentes exames. Com o cuidado adequado, a grande maioria dessas gestantes pode ter uma gravidez tranquila.”
Para Estefani, informação e o cuidado podem mudar o destino das pessoas. “Mesmo você tendo todo o suporte do mundo, o corpo é nosso. A vida é nossa. Quem vai estar ali no dia a dia é a gente. Nós temos que sentir qual o melhor momento”, diz ela, que agora sente que está vivendo a gravidez na melhor fase possível.













