Prefeitura leva o combate ao vício em bets para a Atenção Primária

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Publicado em 01/09/2026 - 14:30  |  Atualizado em 01/09/2026 - 14:13
Novas medidas buscam identificar e tratar apostadores e familiares nas unidades de saúde - Crédito: Edu Kapps/Arquivo SMS

A Secretaria Municipal de Saúde passou a adotar em agosto novas medidas para identificar e tratar apostadores em bets e seus familiares na Atenção Primária. Entre as novas ações estão o rastreio do vício em jogos nas consultas de rotina, nos mesmos moldes do que já é feito para depressão e tabagismo. Agora, em todos os atendimentos, são feitas duas perguntas específicas sobre a relação do paciente com jogos, que são anotadas no prontuário. Se o usuário responde positivo para qualquer uma delas, acende o sinal de alerta para a necessidade de cuidado específico.

“A cidade do Rio foi pioneira entre as grandes cidades brasileiras no combate à propaganda e publicidade de bets. Agora, a Prefeitura começou a agir também dentro da rede de saúde. Toda consulta nas clínicas da família da cidade e nos centros municipais de saúde passou a ter duas perguntas sobre apostas. Se aparecer um sinal de problema, entra no prontuário, e a equipe começa a acompanhar a pessoa imediatamente”, diz o prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere.

Em apenas uma semana da nova estratégia, foram identificadas 22 pessoas que admitiram sentir necessidade de fazer apostas, o que representa quase 1% do universo de 3.070 pacientes que responderam às perguntas durante o atendimento neste período. Quinze pessoas revelaram ter mentido para suas famílias para omitir o quanto gastaram em jogos. 

A nova estratégia prevê avaliação clínica específica e plano terapêutico individualizado, conforme nível de risco identificado, e ainda o acolhimento de familiares, mesmo quando o apostador não esteja disposto a iniciar a assistência. Os tratamentos previstos vão desde orientações, nos casos mais brandos, até acompanhamento especializado com equipe multiprofissional e também pela atenção psicossocial nos casos mais graves.

“O vício em apostas é um problema de saúde pública. Ele chega ao nosso sistema em forma de ansiedade, insônia, depressão, violência doméstica, dívida que vira adoecimento da família inteira. Assim como acontece com o tabagismo e com a depressão, é muito difícil a pessoa que tem problema com apostas buscar ajuda por conta própria. Ao instituir esse rastreio, a gente para de esperar que o paciente nos procure com a demanda do vício e passa a oferecer apoio ativamente, ampliando a capacidade de identificação de casos e, consequentemente, de tratamento”, explica o secretário municipal de Saúde, Rodrigo Prado.

As novas medidas também incluem capacitação de agentes comunitários de saúde (ACS) e demais profissionais das unidades em treinamento especial sobre o tema oferecido pelo Ministério da Saúde; e distribuição de material com orientação à população para busca de ajuda. 


Unidades detectaram aumento de pessoas em busca de ajuda

A elaboração do plano foi motivada pela percepção nas unidades de Atenção Primária do aumento de usuários buscando ajuda com as equipes de saúde devido a situações de saúde com relação ao vício de apostas, seja pelos próprios apostadores ou por familiares. Esse rastreio já era feito na saúde mental, em pacientes dos centros de atenção psicossocial, mas percebeu-se a necessidade de se fazer também nas clínicas da família e centros municipais de saúde.

Para o planejamento da nova abordagem, foi feito um levantamento prévio pelo Núcleo de Inteligência Assistencial da SMS (NIA) com apoio de modelo de linguagem natural a partir dos prontuários eletrônicos da rede. Neste levantamento, foram identificadas 1.378 pessoas com histórico de algum relato, sobre si ou sobre algum membro da família, referindo sofrimento decorrente de situações que sugerem casos de vício em apostas. Nesses usuários, foram observados quadros de ansiedade, insônia e depressão, além de crise financeira no núcleo familiar.

Dentro dessas 1.378 pessoas identificadas no levantamento prévio, entre os que se admitiram apostadores e que buscaram ajuda por conta própria, quase 60% eram homens (567). A idade mediana era de 37 anos, e mais da metade (53%) tinham entre 18 e 39 anos. Já em relação aos familiares afetados, o retrato se invertia: 85% eram mulheres (276 de 325), com idade mediana de 45 anos e concentração nas faixas acima dos 40 anos — em boa parte, esposas e mães de apostadores.

Um dado chamou atenção: 25 dos pacientes identificados tinham menos de 18 anos. Desses, 22 eram meninos. Embora as apostas sejam proibidas para menores de idade, o achado foi coerente com a expansão dos aplicativos de apostas e dos jogos de azar de acesso rápido pelo celular entre adolescentes.

 

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) é o órgão da Prefeitura do Rio de Janeiro responsável por reformular e executar a política municipal de saúde e, como gestora plena do Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade, garantir o atendimento universal da população, conforme os preceitos do SUS. É a SMS que, diante do conhecimento das características e demandas próprias da população carioca, organiza as prioridades da saúde pública da cidade, dentro do que é previsto nas políticas públicas e serviços ofertados pelo SUS.

 

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