Musa e ritmista conciliam a paixão pelo trabalho no SUS e o amor ao samba. Créditos: Edu Kapps / SMS
Enfermeira e responsável técnica na Clínica da Família José Paranhos Fontenelle, em Olaria, Cecília Ferreira, 32 anos, trabalha orientando equipes, organizando fluxos e garantindo que o atendimento chegue a quem precisa. Quando a noite cai, a missão é outra. O jaleco dá lugar à fantasia cheia de penas e paetês, e o crachá cede espaço para uma grande faixa de cetim azul. Há cinco anos vestindo a camisa do SUS, Ciça dedica suas noites à defesa de outro pavilhão: o da Unidos de Vila Isabel, onde é musa. Entre consultas, aplicações de vacina e de curativos, ações educativas e outras rotinas de cuidado, ela se prepara para o desfile do próximo dia 17, quando a escola promete agitar a Marquês de Sapucaí com uma homenagem ao sambista Heitor dos Prazeres. Embora intensa, a rotina de Ciça prova que saúde e carnaval é uma mistura que dá samba.
“Alguns dos meus pacientes vão aos ensaios para me ver sambar como musa e me apoiar. É muito especial sentir esse carinho e respeito, perceber que o trabalho que fazemos na unidade também inspira fora das portas do consultório”, conta a enfermeira.

No mesmo compasso, Gabriella Sena, 29 anos, enfermeira do Consultório na Rua, concilia suas duas maiores paixões. Durante o dia, ela percorre o território da Grande Tijuca oferecendo acolhimento e cuidados em saúde a pessoas em situação de rua, incluindo curativos, tratamento de doenças crônicas e encaminhamento para demandas de saúde mental. Após o expediente cheio, Gabriella ainda encontra tempo para tocar cuíca em quatro baterias: Mangueira, Paraíso do Tuiuti, Arranco do Engenho de Dentro e Inocentes de Belford Roxo.
“A maioria dos atendimentos é feita no território, mas consigo levar meu ritmo do trabalho para o samba e meu samba para o trabalho. Cada ensaio é uma extensão da minha prática de cuidado”, explica Gabriella.
SUS e samba, paixões de longa data
Ciça já conhecia o chão da quadra da Vila há anos quando se tornou passista da escola, em 2023. Ano passado, decidiu se aventurar no concurso de musas da comunidade. Levou para a disputa a mesma disciplina e entrega que marcam seu trabalho na saúde. O resultado veio como reconhecimento: ela venceu o concurso e hoje ocupa o posto com consciência de sua importância para a comunidade, um atributo que também compõe sua história no SUS.
“É incrível como o samba aproxima a gente dos usuários, que nos veem como pessoas reais, que também vivem, celebram e compartilham alegria”, diz ela.
O samba e o cuidado eram amores antigos de Gabriella. Dois anos atrás, ela decidiu colocar a paixão pelo carnaval em prática: entrou para a bateria da Portela e desde então vem marcando presença em diversos desfiles do Grupo Especial e da Série Ouro. Na mesma época, começou a atuar no SUS. Hoje, seu dia a dia inclui visitas a usuários em situação de vulnerabilidade, busca por pacientes que necessitam de acompanhamento e, o mais importante, escuta — sua principal tarefa, tanto como enfermeira quanto como sambista.
“Levo a cuíca na bolsa, trabalho ao longo do dia e parto para o segundo round, mudando de função, mas com o mesmo compromisso com as pessoas”, afirma Gabriella.













